Endometriose: por que tantas mulheres convivem com os sintomas por anos antes do diagnóstico?

“É só uma cólica.” Se você é mulher, existe uma boa chance de já ter ouvido essa frase em algum momento da vida. Talvez de uma amiga. Da família. Ou até de um profissional de saúde. O problema é que nem toda cólica é apenas uma cólica.

Para muitas mulheres, sintomas que parecem fazer parte da rotina acabam sendo os primeiros sinais de uma doença que afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade fértil: a endometriose.

E existe um dado que chama a atenção: em média, o diagnóstico pode levar até 7 anos após o início dos sintomas. 

Mas por que isso acontece?

O que é endometriose?

A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, cresce fora do local onde deveria estar.

Esse tecido pode se desenvolver em diferentes regiões do corpo, provocando inflamação e sintomas que variam bastante de uma mulher para outra.

É justamente essa variedade de manifestações que ajuda a explicar por que o diagnóstico nem sempre é simples.

O primeiro problema: aprendemos a normalizar a dor

Muitas mulheres crescem ouvindo que sentir dor faz parte da menstruação.

E, embora algum desconforto possa acontecer, existe uma diferença importante entre uma cólica suportável e uma dor que interfere na vida.

Se a dor faz você faltar ao trabalho, cancelar compromissos, perder aulas, evitar atividades ou depender frequentemente de medicamentos para conseguir seguir o dia, ela merece investigação.

Dor incapacitante não deve ser considerada normal.

Os sinais que costumam ser ignorados

Quando se fala em endometriose, a maioria das pessoas pensa imediatamente em cólicas intensas. Mas os sintomas podem ir muito além disso.

Algumas mulheres apresentam:

• dor durante as relações sexuais
• sangramento menstrual intenso
• dores pélvicas frequentes
• alterações intestinais durante a menstruação
• sensação de inchaço abdominal recorrente
• dor ao evacuar durante o período menstrual
• sintomas urinários que parecem infecção urinária
• dificuldade para engravidar

Muitas vezes, esses sinais são tratados de forma isolada, sem que ninguém perceba que podem estar relacionados à mesma condição.

Nem toda endometriose causa dor

Esse é um dos fatos menos conhecidos sobre a doença.

Embora a dor seja um dos sintomas mais frequentes, ela não está presente em todos os casos. Estima-se que até 20% das mulheres com endometriose possam apresentar poucos sintomas ou até nenhum sintoma perceptível.

Além disso, a intensidade da dor não indica necessariamente a gravidade da doença.
Uma mulher com um quadro considerado leve pode sentir dores intensas, enquanto outra com doença avançada pode apresentar poucos sintomas.

Por isso, cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Quando o intestino ou a bexiga também entram na história

Outro motivo que contribui para o atraso no diagnóstico é que a endometriose não afeta apenas os órgãos reprodutivos.

Dependendo da localização, ela pode provocar sintomas que parecem não ter relação com a saúde ginecológica.

Quando acomete o intestino, por exemplo, pode causar:

• dor abdominal
• diarreia ou constipação durante a menstruação
• dor para evacuar
• sensação de inchaço

Quando afeta a bexiga, algumas mulheres relatam:

• dor ao urinar
• urgência urinária
• desconfortos semelhantes aos de uma infecção urinária

Por isso, observar quando os sintomas acontecem é tão importante. Alterações que aparecem ou pioram durante o período menstrual merecem atenção especial.

Endometriose é sinônimo de infertilidade?

Não. Esse é um dos maiores mitos sobre a doença.

Embora a endometriose possa impactar a fertilidade em alguns casos, a maioria das mulheres com endometriose consegue engravidar naturalmente.

Estima-se que cerca de 60% das mulheres com a doença engravidem sem necessidade de tratamentos de reprodução assistida.

Por outro lado, a investigação da endometriose pode fazer parte da avaliação de mulheres que estão tentando engravidar há mais de um ano sem sucesso.

Como acontece a investigação da endometriose?

O diagnóstico começa com algo muito simples: ouvir a sua história.

A descrição dos sintomas, o padrão das dores, a relação com o ciclo menstrual e o histórico familiar fornecem informações importantes para o ginecologista. A partir dessa avaliação, podem ser solicitados exames para complementar a investigação.

Entre eles, a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal tem se destacado como uma ferramenta importante na avaliação da endometriose profunda. O preparo intestinal é realizado para reduzir a presença de resíduos e gases no intestino, permitindo uma visualização mais detalhada das estruturas pélvicas e aumentando a capacidade de identificar possíveis focos da doença em regiões como intestino, ligamentos e outras áreas da pelve.

Quando realizada por equipes experientes e com protocolo adequado, essa avaliação pode fornecer informações valiosas sobre a localização e a extensão das lesões, contribuindo para um diagnóstico mais preciso e para o planejamento individualizado do tratamento.

A ressonância magnética da pelve também pode ser utilizada na investigação, especialmente em situações específicas, ajudando a complementar a avaliação e a mapear áreas acometidas pela doença.

Dependendo da situação, outros exames também podem ser necessários. Por isso, não existe um único exame capaz de confirmar todos os casos da doença.
O diagnóstico costuma ser resultado da combinação entre história clínica, avaliação médica e exames complementares.

Um ponto importante é que mulheres com sintomas sugestivos de endometriose não devem adiar a investigação. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as possibilidades de controle dos sintomas, preservação da qualidade de vida e definição da melhor estratégia de acompanhamento e tratamento.

O impacto vai além da dor física

Conviver durante anos com sintomas sem respostas afeta muito mais do que o corpo.
Muitas mulheres relatam ansiedade, irritabilidade, alterações de humor, cansaço constante e sensação de frustração por não entender o que está acontecendo.

A endometriose pode impactar relacionamentos, vida profissional, autoestima e qualidade de vida. Por isso, olhar para a doença apenas como uma questão ginecológica seria uma simplificação.

Quando procurar ajuda?

Vale conversar com seu ginecologista se você apresenta:

• cólicas que interferem na rotina
• dor durante as relações sexuais
• alterações intestinais ou urinárias relacionadas à menstruação
• dores pélvicas recorrentes
• dificuldade para engravidar após um ano de tentativas

O mais importante é lembrar que você não precisa esperar que a dor se torne insuportável para buscar ajuda.

Seu corpo não deveria precisar gritar para ser ouvido.

FEMME. Amor por ela.